Conte um hobby que você começou recentemente — o que te levou a isso?
Faz um tempo que recebo comentários pedindo para eu falar um pouco de mim, e não só de dinheiro, investimentos e tecnologia. Um leitor perguntou direto: “Marcelo, e fora do blog, o que você faz?” Então vamos lá. Tenho dois hobbies, e hoje quero falar do primeiro deles: o violão.
O começo: uma vontade antiga que nunca saía do papel
Tocar violão era uma daquelas coisas que eu dizia que ia fazer “um dia”. Você provavelmente tem uma lista dessas também. Aprender um instrumento, aprender um idioma, começar a correr. A lista existe, mas o dia nunca chega.
No meu caso, o que empurrou foi perceber uma coisa simples: eu passo muito tempo na estrada. Sou motorista de caminhão na Europa, e isso significa semanas fora, cabine, horário de descanso, tacógrafo, rotina. Quando chego em casa, tem um período que é meu. E esse período eu estava gastando com telefone na mão, rolando a tela.
Então comprei o violão e comecei. Sem professor, sem plano perfeito, sem esperar o momento ideal.
A parte difícil não é o que você imagina
Muita gente acha que o obstáculo para aprender um instrumento é talento. Não é. É rotina.
O meu problema nunca foi entender uma pestana ou decorar a posição de um acorde. Foi conseguir tocar com regularidade quando a minha vida é feita de blocos: semanas fora, dias em casa, semanas fora de novo. Não dá para “praticar 30 minutos todos os dias” quando você não está no mesmo país todos os dias.
Aceitar isso mudou tudo. Parei de comparar minha rotina com a de quem estuda uma hora por dia e passei a aproveitar o tempo que eu realmente tenho. Quando estou em casa, o violão está ali, encostado, à vista. E é isso que faz diferença: instrumento guardado dentro do case é instrumento que não se toca.
Onde estou hoje
Sendo honesto sobre o meu nível: ainda estou aprendendo, e vou estar por muito tempo.
Mas já sei bastante coisa. Conheço as notas no braço, sei uma boa quantidade de acordes, entendo como eles se encaixam, e consigo tocar algumas músicas do início ao fim. Não é palco, não é gravação, não é nada disso. É a satisfação de sentar, começar uma música e conseguir terminar.
E aqui está a parte que eu queria mesmo contar neste artigo.
O progresso é o que vicia
Quem acompanha o blog sabe que eu falo muito de juros compostos, de constância, de resultado que aparece devagar e depois de repente. Aprender violão é exatamente a mesma coisa, só que você sente com as mãos.
Você passa semanas achando que não sai do lugar. Aí volta de uma viagem, pega o instrumento, e aquela troca de acorde que travava sai limpa. Ninguém aplaude, ninguém vê. Mas você sabe que melhorou. E essa sensação é absurdamente satisfatória, mesmo com o pouco tempo que eu tenho para dedicar.
É um retorno que não depende de mercado, de câmbio, de algoritmo do Google. Depende só de você ter aparecido.
O que eu faria diferente se começasse hoje
Algumas coisas que aprendi na prática e que valem para qualquer pessoa com pouco tempo livre:
Deixe o instrumento à mão. Guardado, você não toca. Visível, você pega em qualquer intervalo de dez minutos.
Aprenda acordes, não músicas inteiras. Quatro ou cinco acordes básicos já abrem centenas de músicas. Comece pela ferramenta, não pelo objetivo final.
Aceite o barulho ruim do começo. As primeiras semanas soam mal. Todas. Isso não é sinal de falta de jeito, é o dedo criando calo e memória.
Não meça por dia, meça por mês. Com uma rotina como a minha, avaliar o progresso diariamente é receita para desistir. Olhe para trás a cada trinta dias.
Toque o que você gosta. Exercício técnico é útil, mas o que segura alguém sem tempo é o prazer de tocar uma música que significa alguma coisa.
O segundo hobby: este blog aqui
Já que o pedido foi para falar dos meus hobbies, vou confessar o outro: é o MAAV.
O blog começou como projeto, virou trabalho e, em algum ponto do caminho, virou hobby também. Escrever sobre finanças, testar ferramentas, montar as calculadoras, pensar em como explicar um assunto chato de um jeito que dê para entender. Isso me diverte de verdade.
E percebi que os dois hobbies me dão a mesma coisa, por caminhos diferentes. Depois de horas dirigindo, seguindo regra de tempo de condução e descanso, com cada minuto registrado, é bom ter alguma coisa que seja minha e que eu escolha fazer. O violão e o blog ocupam esse lugar.
Um me tira da tela. O outro me faz pensar. E os dois me dão progresso visível, que talvez seja o que eu mais procure fora do volante.
O recado que fica
Se você está lendo isso e tem uma vida corrida, turno puxado, viagem, filhos, o que for, e tem uma coisa parada na lista do “um dia”: comece com o tempo que você tem. Não com o tempo que você gostaria de ter.
Eu toco violão só quando estou em casa. Isso é pouco, comparado com quase qualquer estudante de música. Mas é infinitamente mais do que zero, que era exatamente onde eu estava antes de comprar o instrumento.
E daqui a um ano, o pouco de hoje vai ter virado alguma coisa.
E você, tem algum hobby que anda parado? Conta nos comentários, eu leio todos e foi justamente um comentário que gerou este artigo.
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